Matou e foi malhar

Era para encerrar o expediente meia hora antes. Um motivo nobre: celebrar que a filha de 15 anos, adotiva, passaria a ser, finalmente, sua também aos olhos da lei. Tudo acertado com a chefia. O dia começava diferente, carregado de expectativa.

Mas apenas 30 minutos após iniciar o trabalho — correndo atrás do caminhão de lixo, como fazia todos os dias — ele cruzou com uma arma. E, de forma abrupta e brutal, o sonho se desfez. O dele, de oficializar o amor de pai; e o da filha, de ter o pai reconhecido.

Não foi “um gari” que morreu. Foi Laudemir de Souza Fernandes. Um homem com nome, família, uma filha e sonhos. Foi assassinado por uma arma empunhada por outro homem que decidiu interromper, por nada, a existência de alguém. Laudemir morreu tentando proteger a colega de trabalho, a motorista do caminhão, que foi a primeira a ficar sob a mira do revólver.

Anestesiados por mais uma tragédia, seguimos. Acendemos luzes na cidade quando, na verdade, holofotes deveriam iluminar o debate sobre uma sociedade armada, adoecida e violenta.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, episódios de agressão no trânsito cresceram cerca de 20% nos últimos cinco anos. Não é apenas imprudência; é a expressão de um grave desequilíbrio emocional, alimentado por estresse e pela sensação de impunidade. No caso de Laudemir, o agressor matou, e depois foi malhar.