A Praça (dos Belgas) da Liberdade
É domingo. Você acorda lá pelas 10 horas da manhã. Toma uma café com aquele pão francês do dia anterior. Ainda de pijama, volta para cama ou para o sofá. Liga a TV ou o serviço de streaming e fica zapeando o controle à procura de algo que sustente a sua manhã preguiçosa e dominical. Toca o telefone. Você se arrasta até ele e atende.
À medida que a voz do interlocutor avança, você deixa a caneca de café na estante, procura os chinelos e começa a abrir a cortina. Coloca o telefone no gancho. É, você vai receber visitas. A casa não está lá muito bagunçada, mas longe do que seus visitantes merecem. Eles estavam vindo pela primeira vez. É hora de ajeitar o lugar.
Foi assim. Claro, não bem assim. A cena, contudo, bem que poderia ter sido vivida lá no final da década de 20, em Belo Horizonte, recém criada capital de Minas Gerais. O então presidente do estado Arthur Bernardes tratou-se de arrumar o quintal para não fazer feio com as visitas: o casal de reis belgas Alberto I e Elisabeth.
Eles estavam a caminho. Seria a primeira visita de monarcas à antiga Curral del Rei. A Praça da Liberdade, inaugurada praticamente junto com Belo Horizonte, em 1897, foi completamente reformada em 1920, a pedido de Bernardes. Seu layout arrendondado, com pontes e jardins que se assemelhavam aos ingleses foram substituídos pelas linhas geométricas, inspiradas no parisiense Jardim de Versalhes. Como é sabido, a Bélgica possui grande influência francesa.
As visitas desembarcaram na Praça da Estação e foram acompanhadas por uma multidão até à Praça da Liberdade. Como não poderia ser diferente, o então presidente do estado, não apenas arrumou a casa para os ilustres visitantes, como também cedeu o seu quarto no Palácio da Liberdade para que o casal ficasse mais bem acomodado. Arthur Bernardes, no entanto, não ficou longe de sua residência. Ficou hospedado no belo Solar Narbona, vizinho do Palácio.
É claro que não foi uma visita despretensiosa. A vinda dos reis belgas à capital mineira tinha o propósito de estreitar a relação econômica com o país europeu. Não por acaso, no ano seguinte da visita, fundou-se em Sabará, município vizinho de BH, a Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, hoje, Arcelor Mittal. Ajeitar a casa para a visita pode ser um bom negócio.