Da aversão à ciclovia à paixão pelos patinetes: a contradição de Damião na Afonso Pena


Na mesma semana em que o prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião, reforça que a ciclovia na avenida Afonso Pena “não é de interesse da Prefeitura” e só será feita se a Justiça determinar, ele celebra, em gesto bem mais público, a volta dos patinetes elétricos da JET ao centro da capital mineira.

A contradição não é só discursiva: é de projeto de cidade, de prioridades de mobilidade e de aposta em modais de transporte.

Ciclovia na Afonso Pena: “não é interesse da PBH”

O projeto de requalificação da Afonso Pena, iniciado em 2023, prevê 4,2 km de ciclovia entrelaçada ao canteiro central, integrando‑se a um eixo cicloviário já existente nas avenidas Santos Dumont, Paraná, Álvares Cabral, Professor Morais e Bernardo Monteiro, além da rua Piauí.

A obra faz parte do “Centro de Todo Mundo”, ligada ao Plano Diretor de Mobilidade Urbana (PlanMob‑BH) e ao Plano Diretor de Belo Horizonte, que priorizam transporte público e modos não motorizados.

Em entrevista, Damião afirmou que a ciclovia “não é de interesse da Prefeitura” e que a prefeitura só executaria a estrutura se houvesse determinação judicial.  A justificativa oficial é a preocupação com o fluxo intenso de veículos e a sensação de que a via já estaria sobrecarregada, apesar de estudos técnicos da PBH indicarem que a ciclovia ocuparia uma faixa pequena da pista e não reduziria o número total de faixas para carros.

Patinetes elétricos da JET: 1,5 mil veículos na capital

Enquanto trata a ciclovia como algo não prioritário, Damião apresentou, em 18 de março de 2026, a nova operação de patinetes elétricos da JET em Belo Horizonte, com 1.500 equipamentos disponibilizados para o usuário.

A operação tem tarifas a partir de R$ 0,49 por minuto, e os veículos circulam em vias regulamentadas, as ciclovias, com velocidade máxima de 40 km/h, excluindo grandes avenidas por questões de segurança.

A Prefeitura destaca que não desembolsa recursos para a compra dos patinetes, apenas concede a permissão de operação e recebe remuneração pela exploração pública. Damião justifica a iniciativa dizendo que os patinetes são um modo rápido de curta distância, complementar a ônibus, carros e motos, e que “não é para competir com ônibus, moto ou carro”.

Contradição na política de mobilidade

A contradição aparece nítida quando se compara o tratamento rígido à ciclovia com a aposta em patinetes motorizados em uma mesma região de alto fluxo. Enquanto a ciclovia é vista como “inviável” por aumentar o complexo de trânsito, a PBH abre espaço para veículos elétricos compartilhados, mesmo com o Ministério Público de Minas Gerais já abrindo procedimento administrativo preventivo para fiscalizar segurança e uso do espaço público.

Ainda que patinetes possam ajudar em deslocamentos curtos, especialistas apontam que a ciclovia na Afonso Pena teria papel de estrutura fixa de mobilidade ativa, importante para entregadores, ciclistas tradicionais e para integrar a rede cicloviária de BH, algo que as empresas de patinetes não substituem. A política oficial, em tese, defende prioridade a pedestres e modos não motorizados, mas, na prática, a via central da capital hoje vê ciclovia paralisada e patinetes liberados, sob a mesma gestão.

Manda quem pode, usa quem tem

Para o prefeito, a questão não é tanto de segurança ou de custo, mas de escolha política: a ciclovia na Afonso Pena não interessa, mas a presença de patinetes sim, mesmo que ambos façam parte do debate sobre ruas mais seguras e menos dependentes do carro. Enquanto isso, comerciantes, ciclistas e motoristas continuam divididos, mas o que não muda é o cenário: a ciclovia congelada e os patinetes circulando, lado a lado, na mesma avenida.

Para o Lado Beaga, a pergunta fica: se a cidade está pronta para receber patinetes elétricos, por que não admitir que também está pronta para um trecho de ciclovia que estava planejado, debatido e orçado pela própria Prefeitura? Até onde a “não é interesse da PBH” é argumento técnico ou recado político sobre o que a cidade quer, de verdade, para andar pelas suas ruas?