“Times Square” em BH: cafonice e imaginário colonizado

Começo este artigo reconhecendo a importância de buscar referências e adaptar boas ideias do mundo para Belo Horizonte. E já provoco: por que não discutir, por exemplo, a reabertura de cursos d’água urbanos, como diferentes cidades têm feito em projetos de renaturalização e drenagem, em vez de importar apenas soluções de apelo visual?

Para quem ainda não acompanhou o debate, a Câmara Municipal de Belo Horizonte aprovou, em dezembro de 2024, o Projeto de Lei 911/2024, que criou as chamadas Áreas de Promoção da Cidade. A primeira delas foi prevista justamente na região da Praça Sete, no encontro das avenidas Amazonas e Afonso Pena com as ruas Rio de Janeiro e Carijós. O texto seguiu para sanção e acabou sancionado em fevereiro de 2025, abrindo caminho para a instalação de painéis luminosos inspirados, segundo defensores da proposta, na Times Square, em Nova York.

A ideia, portanto, é permitir a instalação de engenhos publicitários luminosos nas fachadas dos edifícios da área, com altura entre 3 e 40 metros e ocupação máxima de 30% de cada fachada. O projeto foi defendido por seus apoiadores como uma estratégia de “turismo, inovação e modernidade”, e também como instrumento de dinamização econômica do hipercentro.

Não se trata, porém, de uma intervenção trivial. A Praça Sete concentra parte relevante da história de Belo Horizonte: além do obelisco erguido em 1924 no centenário da Independência, três edifícios nas esquinas da praça são tombados pelo patrimônio histórico de Minas Gerais. Por isso, a proposta gerou forte reação de arquitetos, urbanistas e setores ligados à preservação, que veem risco de poluição visual e de apagamento da leitura arquitetônica do conjunto.

É aí que a discussão fica mais profunda. Recorrer ao imaginário novaiorquino como atalho para “revitalizar” o centro pode revelar menos criatividade urbana do que se imagina. Em vez de partir da cultura local, da ocupação real do espaço e das dinâmicas já existentes no hipercentro, a proposta aposta em um repertório visual importado e fortemente associado à lógica da publicidade e do consumo.

Será mesmo que dar vida noturna à região significa transformar fachadas em vitrines luminosas? A própria crítica feita por especialistas aponta em outra direção: requalificar o centro exige política pública, convivência, segurança, mobilidade, incentivo à cultura e valorização do patrimônio, não apenas mais luz, mais tela e mais estímulo comercial. A presidente do CAU-MG, por exemplo, afirmou que os painéis podem “maquiar os edifícios tombados”, em vez de valorizar sua arquitetura.

Ali, na Praça Sete, já existem fluxo intenso de pessoas, bares, comércio, artistas de rua e memória urbana acumulada. A questão, então, não é ausência de identidade, mas a escolha de qual identidade queremos reforçar. Quando a resposta urbanística para um espaço simbólico é reproduzir uma estética globalizada de publicidade em LED, corre-se o risco de substituir experiência urbana por espetáculo visual.

Nesse sentido, a proposta reforça, sim, um imaginário colonizado: aquele que ainda associa modernidade à cópia de referências estrangeiras, especialmente quando elas vêm embaladas pelo prestígio do mercado e da cultura visual norte-americana. Belo Horizonte não precisa virar simulacro de Nova York para afirmar vitalidade, turismo ou vida noturna; precisa, antes, reconhecer o valor de sua própria paisagem, de sua história e de sua maneira singular de ocupar a cidade.